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Aquelas listrinhas vermelhas

A Barata Diz Q Tem

Lembro de, na minha infância, ouvir mais de uma vez minha avó cantarolando uma música que dizia “mamãe, eu te lembro o chinelo na mão, o avental todo sujo de ovo…”. Uma imagem, digamos, muito pouco tentadora para o ideal de mulher descolada, moderna e livre que eu sempre tentei desesperadamente seguir. Deve ser por isso que nunca quis ser mãe, mesmo adorando crianças. A maternidade me parecia uma coisa antiga, que manchava para sempre qualquer noção de mulher bacana. E, sabe como é, eu precisava ser uma mulher superbacana.

Eu sabia que o Pedro queria ter filhos, mas tinha certeza de que levaria muito pouco tempo para convencê-lo do contrário. Eu tinha diversos argumentos já ensaiados para isso.  Aí quando nos casamos, ele me disse, com o tom mais blasé do mundo, em uma conversa trivial: “devíamos parar com o anticoncepcional agora, já que você já tem mais de trinta e podemos demorar a engravidar. Assim a gente desencana desse assunto”.  Topei. Achei muito descolada, moderna e livre a ideia de não tomar anticoncepcional e desencanar do assunto. Combinava comigo, claro.

Um mês depois e a cena do meu filme salta bruscamente para eu dentro do banheiro de um shopping center fazendo xixi numa tira de papel. UM MÊS DEPOIS. Fiz o teste de gravidez ali mesmo, por puro desespero, e hoje, quando me lembro das duas listrinhas nítidas indicando o resultado positivo, não consigo entender como passei horas em dúvida, pesquisando imagens na internet e tentando interpretar o resultado (sim, eu tentei interpretar o resultado procurando testes alheios na Internet. Como eu sou moderna.).

E foi assim que a Nina apareceu pra mim pela primeira vez: no susto, duas listrinhas vermelhas dentro de um banheiro de shopping. Duas listrinhas, susto e também uma solidão imensa, bastante medo e muita ansiedade.

Passei os nove meses seguintes procurando em todos os lugares o sentimento de plenitude que me diziam que acompanhava a maternidade e não encontrei. E no exato momento em que escrevo este texto, aqui em casa, a Nina está brincando com uma baleia de pelúcia no chão da minha sala e percebo que a plenitude nunca veio e que o susto, a solidão, o medo e a ansiedade nunca foram embora. Só que o tempo trouxe também uma alegria. Um orgulho. E esse negócio que eu acho que se chama ternura, que me faz sentir vontade de chorar vendo uma gorducha com uma baleia de brinquedo. Descolada, moderna e livre como só ela sabe ser.

A Nina me fez muito mais bacana. E ser mãe foi a aventura mais radical que eu já topei.

Assinatura Adriane Barroso

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