Pesquise por hashtags, nomes, e assuntos Pesquisar

Fechar

“Ó!”

A Barata Diz Q Tem

A primeira palavra da Nina não foi “mamãe”. Nem “papai”, nem “vovó”, nem “água”, nem “colo”. A primeira palavra da Nina foi “ó”. Não foi só a primeira, mas também é, até hoje, a mais usada.

Eu sei, alguns vão argumentar que “ó” não pode ser caracterizado como palavra. Bom, enquanto eu esperava pelo dia em que ia ouvir da minha filha alguma coisa um pouco mais elaborada que aqueles grunhidos iniciais adoráveis, resolvi estabelecer o seguinte critério científico: seria considerada “primeira palavra” o som que ela usasse com um significado claro. Considerando essa regra, todos que convivem mais com a Nina concordam: a primeira coisa que ela falou com intenção de falar foi “ó”.

Para um mineiro (eu sou mineira, a Nina também é), é mais fácil entender a palavra “ó”. Ela é usada ali o tempo todo também pelos adultos, no lugar de “olha”, de forma exclamativa, para mostrar ou chamar a atenção de outra pessoa para alguma coisa. E é isso que a Nina passa a maior parte do seu dia fazendo: apontando para tudo com o dedinho, olhando para mim e dizendo “ó!”, espantada ou alegre.
Ao longo do tempo, a vogal dela foi ficando mais arrastada. Hoje o “ó” às vezes é “óooooo”, com muitas exclamações ao final, em falsete. Ele também foi ganhando variações. Uma delas, a minha preferida, é “óooun!”, para mostrar algo fofo, como um patinho desenhado na fralda ou uma coruja de pelúcia. E tem também o “ó!” rápido e grave, com a boca bem aberta e os olhos arregalados, para quando o inesperado acontece, como um barulho na porta ou a chegada do pai de surpresa.

Sim, hoje em dia a Nina fala “mamãe”. Ainda é raro, mas acontece. E é claro que eu quase morri quando vi essa palavra na boca dela pela primeira vez. Mas a verdade é que o “ó” da Ninoca me arrebata muito mais que o “mamãe” dela. Porque me inclui da mesma forma, mas também me ultrapassa. É endereçado a mim, mas é ela se voltando para fora de mim, para um mundo todo que não sou eu. Tão bonito ter em casa uma gordinha que se encanta e que se espanta tantas vezes ao dia, que acha tanta beleza em tanta coisa. E que, em vez de me chamar de mamãe, prefere chamar o meu olhar para validar e para compartilhar as coisas que ela vê. “Mamãe, vem ver como o mundo é lindo, louco, doce, impressionante, adorável, estranho e encantador. Vem ver, mamãe!”.

Tudo, tudo, tudo isso, o mundo todo, no “ó” da minha gordinha.

Assinatura Adriane Barroso

Esse conteúdo foi útil?
0.00 avg. rating (0% score) - 0 votes

Comentários

Fala pra gente o que achou

O seu endereço de e-mail não será publicado.