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Um homem também chora

A Barata Diz Q Tem

Foi via internet que eu contei pro Pedro que ele seria pai de uma menina. Havia decidido fazer um exame de sangue para saber o sexo do bebê. O Pê morava em outro país, seguíamos casados a distância e ele me fez jurar que eu não veria antes dele o resultado do teste. No dia marcado, abri o site do laboratório e anunciei em tempo real, via Skype: “você vai ter duas mulheres em casa”. E ele chorou copiosamente, do jeito mais honesto que eu já tinha visto o meu marido chorar até então.

Até então. Porque aí, meses depois, a Nina nasceu. E eu, chorona irrecuperável que me casei com um autêntico exemplar de homem pragmático, virei, como que num milagre, a parte menos emotiva do casal.

Um dia após meu parto, a enfermeira chegou ao meu quarto para avisar que a Nina passaria a noite no berçário fazendo exames de rotina para termos alta no dia seguinte. Quase chorei de alegria porque só pensava em dormir, mas o Pedro efetivamente chorou, e de pena por a pequena dele passar a noite sendo examinada. Na manhã seguinte, fui acordada com um cutucão: “são sete e dez, ela não voltou ainda. Vou esperar lá na frente do berçário”. Voltou para o quarto algum tempo depois, com a filha no colo, ar de vitória e os olhos cheios d’água.

Por seis meses, vivi com a Nina no Brasil enquanto ele trabalhava em outro país. Ele ia nos visitar todo mês e chegava botando banca de pai, quebrando a rotina meticulosamente pensada por mim, acordando a menina de madrugada só pra matar a saudade. E, claro, chorando na chegada, na despedida e no intervalo entre elas.

Ontem, quando fui levar a Ninoca pro quarto dela, ela disse “dormir não” e me deu um beijo desesperado que queria dizer “faço qualquer coisa para agradar a vocês e ficar aqui mais um pouco”. Dormiu, é claro, no colo do pai, que chorou em cima dela por algum tempo até achar que, enfim, ela sobreviveria a uma noite no próprio berço.

E foi assim que ganhei um marido emotivo. Meu pai, de quem herdei minhas lágrimas abundantes, resumiu essa história em um cartão que escreveu pro Pedro. Nele, explica que, na genética, meninos são cromossomo xy e meninas são xx. É o y que determina o masculino e, se a Nina é menina, o que o Pedro transmitiu pra ela foi necessariamente x – ou, nas palavras do meu pai, “o seu melhor lado, o feminino”.

Feliz dia dos pais pro meu pai, por ter me ensinado que os homens que choram são os melhores, e pro Pê, por ter deixado a minha pequenina ensiná-lo a chorar.

Assinatura Adriane Barroso

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