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Uma Vida Inédita

A Barata Diz Q Tem

Quando a gente vira mãe, abre-se um mundo paralelo. Não é mais e não é menos do que a vida sem filho. É, simplesmente, como se o nosso trem mudasse de trilho. Uma vida inédita.

Assim que soube que estava grávida, passei noites inteiras no mais absoluto desespero, calculando tudo o que eu perderia – e não era pouca coisa. Até então, eu morava sozinha, trabalhava muito e com o que eu mais amo, saía com meus amigos sempre que queria, ganhava o suficiente para a minha vida de poucos luxos e muita liberdade. E, nos primeiros meses de gravidez, por diversas vezes, cheguei a concluir que a maternidade havia sido um erro, uma decisão afoita, uma estupidez.

A verdade é que, depois que a Nina nasceu, percebi que ser mãe é um papel que me cai melhor do que eu imaginava. Muito da minha nova realidade já tinha a ver comigo, mesmo que eu não me desse conta disso. Naturalmente, já havia me tornado mais caseira, já tinha percebido que trabalho não é tudo, já sentia o peso da solidão em alguns momentos. Principalmente, já pensava que queria que a minha vida pudesse ter outra cara, e que era um desperdício viver para sempre em um trilho só.

Antes de ser mãe, eu acreditava que ser mãe envelhecia. Descobri que o que envelhece a gente é o tempo mesmo. É inevitável, e é um processo que já tinha começado antes da Nina. Ser mãe só me deu a dimensão mais exata da passagem do tempo. E, em termos gerais, a chegada de uma filha foi muito mais rejuvenescimento que velhice para mim. Mudei de país, mudei de estilo de vida, tive a coragem de me casar de novo e de morar com o Pedro (antes, morávamos em países diferentes), aprendi uma língua nova, comecei a escrever mais, corri uma meia maratona, voltei a estudar com dedicação. Tudo isso ao mesmo tempo em que fui mãe ou, talvez, justamente por ter me tornado mãe. No fim das contas, acho que a maternidade me deixou corajosa para o novo. Depois da loucura de ter um filho, as outras loucuras pareceram mais possíveis.

Cabem tantas vidas diferentes dentro de uma vida! A gente pode descobrir isso de muitas formas. Eu descobri com a chegada da minha pequena. E, para ter acesso a essa vida inédita, valeu a pena sair dos trilhos.

Assinatura Adriane Barroso

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